Entrevista com Lemuel Dinho

Antes de mais nada, queremos pedir desculpas a você, Dinho! Esta entrevista está “no forno” desde 2018 e somente agora conseguimos transcrever e publicar.

Salve tiozinhos, como vocês sabem, SDA é for fun, temos nosso trabalho formal e sempre tentamos conciliar com SDA, o que nem sempre é simples. Mas amamos o que fazemos e estamos aqui, passando essa conversa bem informal que tivemos com nosso amigo Dinho. Aproveitem!

IMPORTANTE: Por favor, fotógrafos e amigos, ajudem-nos neste post, nos enviem mensagem via e-mail [email protected] para que possamos dar créditos nas fotos.

Como foi o seu início no skate?

Meu primeiro contato com skate, as rodinhas transparentes que meu irmão trouxe do Paraguai, foi mais ou menos quando eu tinha 6 ou 7 anos, em São Vicente. Eu vivia na rua com a molecadinha, jogava bola. Eu era um cara que hoje em dia a molecada não tem esse contato, e adquiri logo cedo essas habilidades de coordenação motora, agilidade, andava de carrinho de rolimã, patins.Então com 6, 7 anos meu irmão me trouxe um skate do Paraguai, um skate de fibra, rodinhas transparentes, aí com 10 ou 12 anos eu comecei a surfar e andava num patins branco que meu irmão tinha.Depois do surf eu voltei ao skate, andando nas calçadas, nas rampas de carro, aí conheci o Fred, o Kid, na praça de São Vicente, pracinha de Nossa senhora das Graças. E lá nos começamos a montar as rampinhas de madeira, com madeirite na rua, aí começaram os Back Side Air, que foi meu primeiro aéreo.Aí eu andava na pracinha alí e tal, foi quando conheci o Frederico (FRED) da H.Prol, a gente fazia os shapes em casa, na casa dele, ele tinha os materiais, botava o compensado pra entortar, cozinhava, montava os shapes. O Fred era muito criativo para a idade dele, era um garoto muito esperto. A gente já começou a andar em Cubatão e em outras áreas, e ai conhecemos o “Kidão”, que já estava na H.Prol.

Em que momento você pensou em ser um profissional do skate?

Em nenhum momento, nem mesmo quando eu já era profissional eu pensei em ser pro, na verdade nós amávamos muito o skate, gostávamos de paixão e estava no sangue mesmo, em nenhum momento foi pensado sobre dinheiro, profissionalismo e tal.Depois, a carreira com o tempo, com 5 anos. Daí pra frente, aí sim a gente tinha esse perfil de ser atleta de alta performance, mas no início não e nem no meio.O grande lance era deixar as coisas acontecerem e as consequências virem naturalmente, por que na verdade a gente gostava muito e eu nunca tive ambição sobre nada. Aconteceu assim bem natural, eu acredito que seja um dom mesmo de cada pessoa, que já nasce com o negócio, que foi muito rápido né.Em meio ano eu já era um profissional amador, em um ano eu já era profissional de Vertical, as pessoas já nascem com isso, é dom mesmo.

Qual foi seu primeiro patrocínio?

Meu primeiro patrocínio de verdade mesmo foi a H.Prol, porque, como falei, eu comecei a andar em Cubatão. Depois de Cubatão nós conseguimos o Half da Twin que ficou abandonado, jogado alí no curvão de Itararé. Então a gente deu um jeito de arrumar ele, botar um Flat pra ele, um Half de fibra amarelo, e colocamos uma plataforma, uma batalha. A gente conseguiu deixar legal,  então comecei a andar e ali já começou muito rápido a evolução.Então, de Cubatão já tinha uma base de Vertical, que começou as manobras de Plant, Foot Plant, Boneless, Hang Up, To Fakie, Rock ´n Roll, aquelas coisas bem básicas e Foot Plant Front, Invert, Hand Plant de back. Aí já começaram as manobras, nesse Half já tínha um “Verticalzinho” né, que nós montamos de madeira mesmo, que ele terminava no vertical e depois botamos 20 centímetros de vert.Então aí foi um marco né. Aquele campeonatinho no “curvão” do Itararé com a rampa da Twin. Foi um evento da H.Prol, que aliás repercutiu muito. Negão, Edsinho andou, Tioliba, eu não me lembro bem, acho que o Jorginho também, o Kuge foi lá, então nós já andávamos bem, eu, o Fred e o Kid. E aí meu primeiro patrocínio foi da H.Prol por que na verdade o Kid veio, conheceu a gente e indicou o Fred e depois eles me indicaram. Como eu tive uma evolução muito rápida nesse negócio dos plants e tinha uma adrenalina enorme de me jogar muito, ficou até perigoso no começo. O Jorginho falava muito: “Cara, não se joga tanto, que é meio perigoso e você pode se machucar sério e não dar continuidade na carreira”. Mas eu não escutava nada né, era uma adrenalina enorme e uma vontade de andar, na verdade eu dei muita sorte, eu virei um “gato escaldado” assim que nunca quebrei nada, mas torci tudo, mas nunca aconteceu nada muito sério.

Como foi o convite para participar da saudosa Equipe H.Prol?

O convite da H.Prol veio por intermédio do Kid, através do Fred e depois o Fred e o Kid pra mim. Nós andávamos já um período anterior de 12 até 15, 16 anos. Já andávamos, fazíamos uma session e tinha lá o lance das rampas. Mas depois que o Kid veio com o patrocínio formado através do contato H.Prol , aí ja andava quando eu comecei com 16, 17 anos que foi realmente quando começou essa fase de Cubatão. E a rampa do Itararé, a rampa do Daniel Bourqui que também nós íamos em São Paulo e íamos em outras rampas.

Fale sobre seu model, um shape clássico, como foi a elaboração da arte juntamente com o Roberto Peixoto?

Meu model tem um lance interessante, por que a gente começou a pensar em fazer, o “Prol” falou: “Pensa num modelo e num desenho”, aí fui pra casa pensando: “Caramba, o que que eu vou por?”. Fui na minha mãe e perguntei pra ela o que colocar, aí veio a idéia de colocar uma coisa forte, um bicho forte, e ela disse: ” O Leão é um animal lindo e que tem uma força muito legal!”.Então pelo leão em si fizemos o “Lion”. Model Dinho 1.Dei a ideia para o Roberto Peixoto: “Vamos fazer um leão, um leão mostrando a força dele, faz um leão! Faz aí do jeito que você quiser está bom, mas tem que ser um leão!” Ele teve a ideia da grade, do leão abrindo a grade e ficou legal, ficou chocante, um leão abrindo a grade e deu sorte. Minha mãe com a ideia dela e eu fiz o leão que simboliza o rei dos animais.

Depois daquela “baixa” que o skate deu com o Plano Collor, o que você foi fazer?

A baixa do plano Collor realmente foi um terror né, por que nós estávamos todos assim ferrados. Com a força da palavra, quebrou o país violentamente e quebrou todo nosso esquema de patrocínios, de H.Prol, praticamente faliu, pois tentou ficar e não conseguiu. As outras empresas, eu estava na época na M2000 tênis, ganhando muita grana com contrato, que cobriu todos meus patrocínios e co-patrocínios que eu tinha com perspectiva de ficar um tempão. Eu e o PORQUÊ lá tínhamos uns 2 anos e poderia ficar pelo menos uns 5 anos, andando bem em alta performance, mas aconteceu aquilo e então a gente teve que sair.Mas eu já estava lesionado, com cruzado posterior rompido. Não quis fazer a cirurgia, só fui saber depois com 40 anos, quando eu fiz a cirurgia. Então já estava rompido desde a época de Jacareí, então passei minha carreira toda, com o cruzado rompido no joelho da perna esquerda, que é o maior ligamento da perna.Nessa época eu já pensava na minha família, com uma gata que eu amasse, que fosse minha esposa, ter minha família que graças a Deus hoje tenho. E também eu já era vendedor, eu vendia os materiais de skate, eu tive algumas representações por exemplo, da Hang Loose, que era na baixada.Trabalhei de venda com várias coisas, daí eu pensei já na época de me estabilizar para poder ter uma vida melhor.Eu não ia poder ficar com os salários baixos perto dos 30 anos e querendo ter casa, ter uma situação normal que todo homem quer. Então tive que optar por ser vendedor, que eu sempre gostei, por que ficar preso e estudar nunca foi minha história.Na verdade eu já tinha abandonado o quartel, a escola também terminei até o segundo colegial porque faculdade não dava para fazer, por causa dos campeonatos e tal. Tive que optar por ser vendedor e sou até hoje, vendas te deixa livre, é uma maravilha.

Ainda tem contato com os antigos membros da Equipe?

Ainda tenho contato com todos, pena que o Cabeça faleceu. Pankeka também, mas o tempo inteiro eu tinha contato com eles, tenho contato com o Kid também, contato com o Fred, moram aqui na baixada. Contato pelo Facebook, às vezes a gente se encontra em algum lugar, raramente.Mas as sessions de skate não acontecem por que o Fred está com o joelho muito mal, por causa da cartilagem do joelho, por causa do trabalho dele e é meio perigoso, ele não anda.

Continua andando? Que frequência?

Eu trabalho na Escola Total também e a gente dá aulas de skate pra molecadinha das escolas públicas, então a gente dá uns grinds lá, brinca, dá uns carvings, ensina a eles o básico, o drop, as batidas na parede, sequência, slides, posicionamento dos pés no skate e etc.Ando no Quebra, mas estou um pouco parado atualmente, andei muito há dois anos atrás e dei uma paradinha agora.Mas agora, atualmente comprei um Hosoi lá na Surf Trunk, no Camarão aqui na baixada, inclusive ele é muito legal. Legal pra caramba o Camarão, até recomendo a loja. Ele me dá uma força sempre que pode, o cara é muito gente fina. Na Surf Trunk comprei um equipamento todo Hosoi, que eu quase não gosto né? (risos). Então agora eu tenho um skatinho com Hosoi POP inteirinho pra andar e aí tô voltando sim pra dar uns “grindzão”, rockslide, fifty né, uns “Smithão”, dá pra brincar legal. Uns aéreos não dá mais por causa da articulação, flexibilidade do joelho também que foi operado. Ele ficou firme, mas, não tem flexibilidade.

Hoje em dia há vários campeonatos com as categorias Master, Grand Master, entre outras, pensa em correr algum?

Então eu corri uns eventos aí uns 2 ou 3 anos atrás. Foi legal pra caramba, foi no interior, acabei ficando em quarto lugar, muito legal. Mas assim, penso em fazer o trabalho no Brasil, mas hoje em dia é muito difícil por que você quer ter uma vida tranquila fazendo o que gosta, não para ter uma boa grana para sustentar a família, eu tenho uma filha de 11 anos, uma esposa, então, tem que sustentar a casa toda, e as prioridades são mais fortes que os eventos.Mas queria correr sim, estou até tentando me programar para dar uns “Grindão”por aí.

O que o Dinho anda fazendo hoje em dia?

Eu tenho trabalhado muito, porque com esse lance de vendedor que eu gosto de ser, fui a vida inteira, então para não ficar preso com ninguém, eu compro e vendo as minhas coisas. Gosto muito dos eletrônicos, eu compro celulares, computadores, são as coisas que eu gosto de mexer e revender, e aí é uma trabalheira danada por que, tenho muitos clientes, me toma um tempo danado. Tentando montar uma Micro Empresa legal, está indo bem, está tudo certo.

Quais os planos para o futuro em relação ao skate?

Os planos para o futuro em relação ao skate é sempre andar, dar um rolezinho legal, dar as aulas de skate pra molecadinha aqui, eu acho importante não só pra mim, mas para eles também. Passar um pouco do que foi minha carreira.Eu dou aula particular de skate também, acho super legal e eu estou junto aí em tudo que for relacionado ao skateboard, que eu tenha tempo, sim!Mas hoje em dia tudo é tão difícil né?Eu tenho como meta nunca parar, dar uns grinds legais, ficar um velhinho “preparadinho”para poder praticar esporte a vida toda!

Com a evolução do skate, acabamos chegando a Olimpíada, qual a sua opinião sobre esse momento do skate? Tem acompanhado?

Tenho acompanhado sim, mas não a fundo. Eu sei que a próxima agora vai valer a competição, me parece que teve demonstração nessa última.Não tenho acompanhado, mas acho super legal sim, com certeza.O skate é esporte, inclusive o lema da H.Prol começou, e a gente tentou ser o mais profissional possível e eu também. Em toda minha carreira fui falando isso, eu nadava, fazia preparo físico, eu sempre dizia que skate é esporte, a gente teve essa Utopia o tempo inteiro e agora se tornou realidade.

Foto: Paulo Bassi

Deixe um recado para os seus fãs e para o SDA.

O recado que eu tenho pra galera é que, ultimamente a gente tem escutado que o Brasil não valoriza seus ícones e a sua história, realmente a gente não valoriza mesmo, por conta de que a gente não tem estrutura para isso. Nós não temos ainda um povo com nível intelectual, que consiga ter uma melhor visão sobre as coisas.A verdade é que a evolução do nosso país ainda está passando por uma época que o povo muito misturado e ainda temos esse problema com a política e a corrupção. Eu acredito que tenha que passar mais tempo para que a gente possa evoluir um pouco mais o nosso país, e aí sim conseguimos fazer como os países de primeiro mundo fazem.O que é mais importante para mim, é a história e a amizade que eu fiz com todos e essa história toda que foi criada e é uma verdade de vida para nós. A amizade de todas as pessoas que fizeram isso tudo comigo, o que vale mais para mim e a galera toda do skate.A evolução do ser humano, do nosso país, tem que passar. Acredito que no futuro tenhamos uma estrutura melhor, e uma forma de valorizar nossos ícones como lá fora, de qualquer forma, já temos um pouco disso e agradecer a Deus por tudo. A gente tem muito mais que agradecer, do que reclamar.A vida é maravilhosa e a minha foi com muita sorte até hoje ainda é.Agradeço a Deus por tudo, sou uma pessoa privilegiada pela sorte que Deus me deu na vida, de ser um skatista e poder passar essa história aí para vocês.Foi uma história bonita, da H.Prol, da Equipe e de toda essa evolução do skate, dos anos 80 até 90. E a gente realmente é a base de uma história muito legal que até hoje tornou o Brasil um país rankiado no skateboard atual.

7 thoughts on “Entrevista com Lemuel Dinho

  1. Roberto M. Peixoto says:

    PARABÉNS EVERALDO PELA ENTREVISTA COM O DINHO, MY BROTHER FICOU SHOW E OBRIGADO POR CITAR O MEU NOME TAMBÉM PELO TRABALHO DO SHAPE DELE, VOU TE MANDAR UMA FOTO DELE COM O MODEL OK E NOVAMENTE VEBHO PARABENIZAR VCS DOIS POR FAZEREM PARTE DESSA HISTÓRIA DO SKATE NACIONAL .

  2. Guto Jimenez says:

    Sensacional entrevista com um ícone dos anos 80! Muito bom saber que ele tá bem, com saúde e em paz Espero vê-lo num evento de “tiozinhos”, Dinho, aquece as canelas aí!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pin It on Pinterest

Share This